Trabalhadores pressionam empresas a adotar práticas sustentáveis

Cada vez mais, os sindicatos e as centrais sindicais estão negociando nos acordos coletivos cláusulas que visam garantir um ambiente saudável
Já que tudo está interconectado, não adianta ter emprego, salário justo e segurança e saúde no ambiente de trabalho se viver num bairro, numa cidade e num país sem qualidade de vida. Por isso, cada vez mais, os sindicatos e as centrais sindicais estão negociando nos acordos coletivos cláusulas que visam garantir um ambiente saudável. Ou seja, desenvolvimento sustentável agora também faz parte das reivindicações dos trabalhadores. E eles, unidos, têm força para levar as empresas a adotar práticas mais sustentáveis, que garantam qualidade de vida digna não só a seus trabalhadores, mas à toda a população.
“Antigamente, desenvolvimento sustentável era assunto só de ambientalistas. Agora, é assunto de sindicatos e de centrais sindicais até porque, cada vez mais, todos estão preocupados com poluição, desmatamento, destinação de resíduos, etc, porque querem viver em ambiente saudável”, explica Edson Dias Bicalho, presidente do Sindicato dos Químicos de Bauru e Região, secretário-geral da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas (Fequimfar), secretário de Relações Sindicais da Força Sindical para a América Latina e Mercosul e membro da diretoria da IndustriALL Global Union.
A convenção coletiva do setor farmacêutico no Estado de São Paulo, por exemplo, no item sobre saúde e segurança do trabalhador, há recomendação para que as empresas façam a higienização dos equipamentos de proteção individual e dos uniformes contaminados como manda a legislação. “Antigamente, quem trabalhava com produto contaminante levava o uniforme para lavar em casa. A roupa de trabalho era misturada à roupa comum e a água utilizada não recebia tratamento específico. Agora, com esta cláusula, cabe à empresa fazer a higienização e tratar adequadamente a água utilizada”, explica Bicalho.
Este viés da atuação do movimento sindical, o do desenvolvimento sustentável, também está na pauta de grandes discussões sobre o trabalho. De 11 a 15 de março de 2014, representantes de trabalhadores de vários países estarão na cidade de Santo Domingo, na República Dominicana, para participar do Congresso da Confederação Autônoma Sindical Classista. Um dos eventos é o Colóquio Internacional sobre “Trabalho Decente e Desenvolvimento Sustentável”.
Bicalho vai participar do congresso representando a Força Sindical e vai expor o cenário dos trabalhadores brasileiros. “Temos muitas bandeiras de luta, mas a situação é favorável: o Brasil vive período de quase pleno emprego e 80% das negociações salariais têm conquistado ganho real, além da correção dos salários pela inflação. E isso é importantíssimo para o trabalho decente, ou seja, para que o trabalho seja adequadamente remunerado e exercido em condições de segurança, liberdade e igualdade”, frisa.
Bicalho ressalta que as centrais sindicais têm papel importante neste cenário. “As centrais sindicais brasileiras têm suas peculiaridades, mas elas se unem para combater o trabalho precário. E isso faz muita diferença! Contamos também com a fiscalização firme do Ministério do Trabalho. Situações como jornada de trabalho além da permitida e condições de segurança e saúde inadequadas, mesmo em obras para grandes eventos, como os estádios de futebol, foram repudiadas com greve”, completa.  

A situação de quase pleno emprego do Brasil, na avaliação de Bicalho, muito também se deve à união das centrais sindicais, assim como dos empresários. “O Brasil não foi tão afetado pela crise econômica como a Europa porque as centrais sindicais e os empresários atuaram de forma a proteger e a estimular o consumo interno. Se a economia não cresceu como o esperado, também não chegou a ser tão afetada como na Europa”, frisa.