SUSTENTAR OU MORRER

Desde a década de 1980, a atuação empresarial passou a ser regida pelas mudanças no cenário político, econômico e social, contando com a influência direta da globalização, da tecnologia da informação e do esgotamento dos recursos naturais. Diante desse quadro, aumentou a pressão por parte da sociedade e do próprio poder público para as empresas assumirem a responsabilidade pelo impacto socioambiental de suas operações. Para abraçar as novas expectativas do mercado e da sociedade, surge a chamada sustentabilidade corporativa, voltada às boas práticas de gestão, produção e atuação, não apenas para garantir a sobrevivência da empresa, como, principalmente, do planeta.A engenheira Cristina Fedato, instrutora da rede Ethos/Uniethos e especialista em sustentabilidade corporativa, observa que existem duas visões para o conceito de sustentabilidade: uma mais voltada para a perenidade do negócio e outra para a sobrevivência da humanidade. “Desenvolvimento sustentável é o que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações, conforme texto da Comissão Brundtland, de 1987; pela cartilha do Instituto Ethos, a sustentabilidade empresarial assegura o sucesso do negócio em longo prazo e, ao mesmo tempo, contribui para o desenvolvimento econômico e social da comunidade, um meio ambiente saudável e uma sociedade estável”, diz a especialista.
Para ela, as empresas no Brasil cada vez mais começam a implantar esses princípios, induzidas por diferentes mecanismos, como legislação, pressão da matriz, dos clientes e tomada de consciência da alta direção. As empresas da cadeia da construção, por sua vez, também aparecem em escala crescente entre as interessada em adotar as diretrizes da sustentabilidade corporativa.O engenheiro Roberto de Souza, diretor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE) e articulista da Construção&Negócios, observa que as empresas de ponta têm trabalhado as dimensões ambiental e social dentro de seus planejamentos, o que traz resultados para os acionistas, colaboradores, meio ambiente e sociedade. Esse direcionamento implicaria em adotar a sustentabilidade corporativa como valor e estratégia empresarial, servindo como orientação ao desenvolvimento de empreendimentos, como condicionante dos processos de fabricação de materiais. Além disso, seria premissa de planejamento urbano, no desenvolvimento de projetos e na execução de obras.
Mas, qual é o momento atual da sustentabilidade corporativa? “Podemos dizer que o conceito ainda não está internalizado no DNA das empresas nem nas pessoas”, observa Vivian Blaso, diretora de marketing e sustentabilidade da consultoria Conversa Sustentável. Para ela, esse conceito vem adentrando as empresas devido à escassez de recursos naturais não renováveis, às mudanças climáticas e pelas próprias demandas por mudanças nas formas de produção e consumo”, o que interfere nas relações humanas, na forma de se fazer negócios e na forma de se viver na terra.Visão estratégica“A adoção da sustentabilidade corporativa nas incorporadoras e construtoras é hoje uma questão de visão estratégica do empresário e de atitude dos vários profissionais envolvidos, pois diz respeito a uma mudança de paradigmas em relação ao negócio e aos processos de produção”, afirma Danusa Nascimento, consultora em sustentabilidade corporativa do CTE. “Entendo que a crise atual abre um grande campo de oportunidades para que as empresas da cadeia produtiva se reposicionem e criem vantagens competitivas por meio da gestão sustentável incorporada em suas práticas”.Na estratégia do negócio, ela diz ser imprescindível adotar uma visão que englobe questões econômicas, ambientais e sociais, com o foco em sua perpetuidade. Assim, essa visão se desdobraria para a gestão da empresa e seus processos, projetos, empreendimentos e obras, na racionalização dos custos, aumento de produtividade, retenção e desenvolvimento de talentos, além da prática da responsabilidade socioambiental. “É um movimento conjugado em que a empresa de construção cria instrumentos para sobreviver à crise e, ao mesmo tempo, constrói diferenciais competitivos calcados na sustentabilidade, de forma a se posicionar em um novo momento de crescimento pós-crise”, diz a consultora.
Diversas normas, certificações e referências também podem orientar as empresas na adoção de práticas socioambientais, como os princípios do Pacto Global, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), a Carta da Terra, a Agenda 21, as Diretrizes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para Empresas Multinacionais, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a SA 8.000 – Social Accountability 8.000, a norma OHSAS 18.001 sobre gestão da segurança e saúde no trabalho, a série de normas ISO 14.000 sobre gestão ambiental, o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativado Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), o Balanço Social Ibase e as Diretrizes para Relatórios de Sustentabilidade da Global Reporting Initiative. Além desses, Danusa Nascimento ressalta a boa aceitação dos chamados selos verdes por parte das construtoras e incorporadoras. É o caso do Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) e da certificação Alta Qualidade Ambiental (Aqua), baseada em modelo francês.
Rumo certo
Segundo Vivian Blaso, da consultoria Conversa Sustentável, “o setor se movimenta para repensar o seu modelo de negócios sob a ótica da sustentabilidade. No caso da construção existe uma verdadeira correria em direção aos produtos verdes, processos ecoeficientes e melhores práticas”, afirma.Blaso acredita que, em função de alguns parâmetros empregados na construção sustentável, esse movimento tem impulsionado toda a cadeia a adotar melhores práticas. Nesse sentido, fabricantes de materiais de construção, por exemplo, têm buscado ganhar vantagem competitiva frente à concorrência em função do seu desempenho em relação à sustentabilidade – e não só dos produtos, mas da própria organização. “Podemos destacar grandes empresas nesse caminho como a Holcim, Camargo Corrêa, InterfaceFLOR, Saint-Gobain e ArcelorMittal, entre outras. Esse movimento tem maior força nas grandes empresas, que, por sua própria atividade industrial, estão ligadas à mineração e também são alvo de maiores riscos, tanto sociais como ambientais”, complementa.“As empresas da cadeia da construção estão se familiarizando com os princípios da sustentabilidade corporativa, mas ainda estamos muito atrás das práticas dos países desenvolvidos”, afirma Ludmila Lepri, diretora de marketing da Lepri, que, dentro desse espectro, produz cerâmicas e pastilhas com a reciclagem de lâmpadas fluorescentes. Quando descartadas incorretamente, as lâmpadas contaminam o solo e as águas com o mercúrio metálico, nocivo tanto ao meio ambiente quanto aos seres humanos.Países como Alemanha e Japão, por exemplo, possuem leis que cercam e ajudam as empresas e os consumidores a trabalharem dentro de princípios de sustentabilidade. Mas, geralmente, adotar esses princípios envolve gastos financeiros e com recursos humanos. “As empresas ainda veem isso como um custo, e não como um investimento”, afirma Ludmila Lepri.
No Brasil ainda estamos longe dessas implantações?
“O maior dilema para se conseguir adotar e suportar um programa de sustentabilidade corporativa está nas pessoas. O mais difícil é a mudança cultural”, deixa claro Vivian Blaso.
O passo a passo
Como implantar um projeto de sustentabilidade corporativa.Uma parcela da cadeia da construção já se conscientizou de que não é possível manter o crescimento do negócio sem entender os impactos de seus processos, produtos e serviços, seja no aspecto social, ambiental ou econômico. Tal visão tem se ampliado com a crise financeira que o mundo enfrenta, que é também “uma crise de ética empresarial, governança corporativa e gestão sustentável”, conforme visão de Danusa Nascimento, consultora em sustentabilidade corporativa do CTE.“A premissa inicial para trilhar um caminho de sustentabilidade corporativa é estabelecê-la como valor estratégico para a empresa e seus negócios, e desdobrar esse valor para a gestão corporativa e para os empreendimentos, projetos, obras, fornecedores e demais partes envolvidas”, afirma Danusa. Segundo ela, uma empresa da construção deve procurar implantar um Programa de Sustentabilidade Corporativa liderado pela alta direção, de forma evolutiva e planejada, pois o tema deve ser tratado com uma visão de curto, médio e longo prazo.Esse programa começa com um diagnóstico da empresa, de sua estratégia, dos seus processos de trabalho e suas interfaces, da cultura interna e conceitos de sustentabilidade já adotados pela empresa de forma a subsidiar a concepção e desenvolvimento do projeto. Esse levantamento permite entender o perfil e a estratégia da organização; a missão, visão, valores e princípios éticos que norteiam as suas ações e decisões cotidianas e os impactos sociais, ambientais e econômicos que estão envolvidos em seus processos e produtos, verificando como a organização está posicionada em termos de boas práticas de sustentabilidade.Após o diagnóstico, Danusa recomenda a formação de um comitê de sustentabilidade composto por profissionais da diretoria, gerências e facilitadores das áreas envolvidas, como incorporação, suprimentos, projetos, obras e setor administrativo-financeiro. Cabe a tal comitê:
• mapear os stakeholders, ou seja as partes envolvidas que estão de alguma forma ligadas ao negócio da empresa, como público interno, fornecedores, comunidade, clientes e consumidores, governo e sociedade;• entender de forma clara o que é a responsabilidade empresarial e difundir seus conceitos para os colaboradores da empresa;• definir a Política da Sustentabilidade da empresa e criar metas e indicadores para monitorar e controlar o desempenho do programa;• desdobrar a Política da Sustentabilidade para os processos de gestão empresarial, empreendimentos, projetos e obras;• orientar a implantação do Programa de Sustentabilidade.O segundo passo é a elaboração de um plano de ação em função das prioridades da empresa. Esse escopo envolve os processos corporativos e produtivos, podendo abranger questões relativas à estratégia e gestão, aspectos econômicos e ambientais dos empreendimentos, projetos e obras, de responsabilidade social e de educação e sensibilização dos colaboradores. Alguns exemplos de ações que podem fazer parte deste escopo inicial:• estruturação de um código de ética;• políticas de combate à corrupção;• políticas de não-discriminação, promoção da equidade e valorização da diversidade;• neutralização das emissões de carbono das operações do escritório e de seus empreendimentos;• programa de saúde, segurança e condições de trabalho;• programas de ações sociais;• programa de economia de água em empreendimentos;• programa de aumento de eficiência energética e conforto ambiental dos projetos;• programa de gestão de resíduos em obra;• programa de coleta seletiva do lixo;• políticas de remuneração e bonificação.O terceiro passo é a efetiva implantação do programa, seu monitoramento e avaliação, de forma a corrigir desvios e promover ações de melhoria, assim como desenvolver ações de comunicação do mesmo para os stakeholders, informando-os de que a empresa está em um caminho sustentável. Destacam-se nessa etapa as seguintes ações: • medir o desempenho do programa e compará-lo com as metas e indicadores definidos no passo inicial;• elaborar os Relatórios de Sustentabilidade da empresas e difundi-los para as partes interessadas;• promover ações de comunicação e marketing visando a divulgação dos resultados para o público interno e externo.O quarto passo é a definição de uma nova fase chamada de escopo intermediário, que novamente será implantado, monitorado e divulgado, seguindo as mesmas etapas e a sequência definida nos passos anteriores, até a empresa consolidar uma nova posição do ranking da sustentabilidade.O quinto passo é a definição e implantação do escopo avançado da sustentabilidade, no qual a empresa atinge as diretrizes contidas nos referenciais de boas práticas socioambientais existentes no mercado, seguindo a mesma metodologia citada anteriormente. Esse processo evolutivo de escopo permite que a empresa amplie, em cada fase, o conjunto de ações sustentáveis sendo implantadas, de uma forma que se consolide e permeie o DNA da organização.Apoio
Sebrae-SP dispõe de Sistema de Gestão Ambiental (SGA) baseado no desenvolvimento socioeconômico, além de proteção ambiental.
Para as empresas que desejam adotar os princípios da sustentabilidade corporativa, o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP) coloca à disposição seu Sistema de Gestão Ambiental (SGA), que se baseia em três pilares interdependentes e equilibrados: desenvolvimento econômico e social, além de proteção ambiental, focado nascartas da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como ECO-92, realizada no Rio de Janeiro, e da Cúpula Mundial de 2002, em Joanesburgo (África do Sul), que definiu que o desenvolvimento sustentável deve ser construído nos âmbitos local, regional, nacional e global. O objetivo do SGA é tornar a empresa mais eficiente e competitiva quanto ao desempenho econômico, ao mesmo tempo em queos aspectos ecológicos e sociais são tratados não enquanto problemas, mas como fatores fundamentais para que seu sucesso ocorra de forma segura, duradoura e responsável.O órgão diagnostica e elabora um Relatório Técnico no qual são analisados os aspectos ecológicos, sociais e econômicos da empresa. Ao final, algumas recomendações são indicadas para que o empresário possa analisar criticamente tanto o seu processo produtivo quanto as próprias recomendações, visando melhorá-las ou adequá-las de acordo com sua experiência ou possibilidades econômico-financeiras. Tudo dentro de um processo de melhoria contínua.
Texto: Jair Marcos Vieira