Ética, Sustentabilidade e Comunicação

Nos dias de hoje falar sobre sustentabilidade tornou-se tarefa “fácil” basta abrir os jornais com os anúncios dos lançamentos imobiliários e pronto é capaz até do jornal virar uma árvore outra vez. A facilidade com que se fala deste tema tem colocado os profissionais de comunicação frente a um novo desafio: como comunicar sem banalizar?

“Segundo o Relatório de Brundtland (1987), sustentabilidade é: “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas”. Isso é muito parecido com a filosofia dos nativos dos Estados Unidos, que diziam que os seus líderes deviam sempre considerar os efeitos das suas ações nos seus dependentes após sete gerações futuras”. “O termo original foi “desenvolvimento sustentável,” um termo adaptado pela Agenda 21, programa das Nações Unidas. Algumas pessoas hoje, referem-se ao termo “desenvolvimento sustentável” como um termo amplo pois implica em desenvolvimento continuado, e insistem que ele deve ser reservado somente para as atividades de desenvolvimento. “Sustentabilidade”, então, é hoje em dia usado como um termo amplo para todas as atividades humanas.(Wikipédia, a enciclopédia livre)”.

O que banaliza a sustentabilidade talvez seja a grande exposição da mídia sobre o tema que ao invés de propor reflexões sobre métodos, processos e modos de gestão necessários para sua implantação nas empresas divulga ações pontual voltadas à preservação ambiental o que muitas vezes já é uma obrigação da própria empresa para que ela consiga operar as suas atividades.

O tema sustentabilidade sugere uma quebra de paradigmas, uma reinvenção, ou seja, inovação.

Michael Serres aposta na inventividade: é preciso exercitar a criatividade e se não conseguirmos, não vamos reinventar a universalidade do homem proposto pelo autor. Essa reflexão da qual me refiro, precisa de momentos de solidão e de auto conhecimento. Está relacionada a um momento do homem com ele mesmo, e não a reflexão exclusivamente pragmatizada sobre a metodologia, o dinheiro e o retorno que a aplicação da sustentabilidade proporcionará as empresas no médio e no longo prazo.

Mais do que isso, a sustentabilidade nos sugere uma nova forma de pensar e agir, como acredita Serres na Hominescência capaz de religar cultura, ciência e filosofia é uma ruptura ao modelo cartesiano, ocidental e tradicional que colocava cada um no seu quadrado dentro das empresas,

“O ocidente acabou por transformar o mundo. A Terra, no sentido do planeta fotografado em sua globalidade pelos cosmonautas, tomou o lugar da terra, como a gleba cotidianamente trabalhada. Essa figura separou no final do último século de todo o tempo passado desde o neolítico, já transformou nossos relacionamentos com a fauna e a flora, com a duração das estações , o tempo que passou, com o tempo que faz, com as intempéries, com espaços e lugares, com o habitat e nossos deslocamentos. Essa fissura também transformou os relacionamentos sociais;coletivamente não vivemos mais da mesma maneira, desde o desaparecimento do cordão nutrimental comum ao campo, ás propriedades, à vegetação e aos animais, à ocupação dos territórios, a sua defesa e á guerra;nem sequer morremos mais da mesma maneira,pois, por falta de espaço nas cidades, preferimos incinerar nossos mortos a enterrá-los sob o suor de nosso trabalho”.

Talvez hoje, essa ruptura do modelo ocidental cartesiano que separa cultura, indivíduo e sociedade também seja o grande paradigma da ciência contemporânea que busca sair do velho paradigma do homem como centro do universo para o homem que está integrado ao todo.

Por outro lado, temos um homem blasé, (conformado com a situação atual, indiferente) e dessa forma questiono: Como podemos quebrar essa barreira de pensamento tradicional para um pensamento sistêmico, trasdiciplinar que integra e interage com todas as esferas da vida no universo? Este é o desafio atual.

Vivemos um momento onde as profissões tecnológicas têm ganhado cada vez mais o lugar das profissões das ciências humanas e sociais aplicadas.

O que impera este medo de se aproximar das ciências que estudam o homem e a sociedade?

O inovar sugere arriscar se redescobrir, portanto, como é possível se distanciar das ciências que estudam o homem para tentar cada vez mais controlar o universo através do tecnológico?

Este é o grande paradoxo do nosso século. Como podemos quebrar os sistemas atuais para reinventar processos, inovar arriscando os métodos tradicionais de produção para se aventurar em novos métodos que sugerem produções mais limpas se estamos condicionados em uma sociedade de consumo?

Este novamente é o ponto de inovação que muitos cientistas atuais como Robert Happé nos propõe: é o questionamento sobre a Felicidade!

Será que para ser feliz precisamos cultuar a cultura do “ter” justamente a cultura que nos coloca no centro de tudo?

Vejo que o pensamento sistêmico sugere um rompimento do pensamento tradicional, pois nos mostram que existem outras possibilidades, outras formas de expressar nossos sentimentos que não sejam através do consumo de bens e serviços.

O pensamento sistêmico sobre a sustentabilidade, não pode deixar de fazer parte de reuniões de diretoria, pois os líderes da organização quando se reunirem para discutir os seus próprios dilemas deve incluir na pauta a reflexão sobre a sustentabilidade. Este pensamento traz reflexões sobre os valores, a ética, a responsabilidade social, ambiental e comportamental. É um resgate a moral, entretanto, será necessário se permitir sair da forma e descobrir coisas novas para inovar e criar novos mecanismos de sobrevivência sem necessariamente precisar do ter para ser feliz.

E por falar sobre a Ètica ela exige reflexão, religação como diz Morin, entre indivíduo, espécie e sociedade. E para que essa religação ocorra é necessário o auto conhecimento e reflexão.

“A palavra Ética é originada do grego ethos, que significa modo de ser, caráter. Através do latim mos (ou no plural mores), que significa costumes, derivou-se a palavra moral.[1]. Em Filosofia, Ética significa o que é bom para o indivíduo e para a sociedade, e seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres no relacionamento indivíduo – sociedade”. “Define-se Moral como um conjunto de normas, princípios, preceitos, costumes, valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social”.

Alguns dos questionamentos propostos por Morin, estão relacionados a essa dificuldade do homem de religação, pois o nosso pensamento não é sistêmico, mas departamentalizado, dessa forma estamos incapacitados de ver o todo e sendo assim, incapacitados de religa-se ao todo. Essas incapacidades nos levam as irresponsabilidades e a falta de solidariedade que caracteriza os seres humanos como mais individualistas do que altuístras.

Agindo sob a ótica do “EU”, do “agora” o que caracteriza essa sociedade cada vez mais “liquida” proposta por Bauman, talvez seja a Ética do certo sob apenas um único ponto de vista. Neste estágio, podemos dizer que o os valores sempre são valores sob um único olhar, ou seja, sem essa capacidade de religar indivíduo, espécie e sociedade como é possível pensar para agir sob os princípios de Liberdade – Igualdade – Fraternidade de maneira que um princípio não seja mais importante que os demais?

“Todo conhecimento (e consciência) que não pode conceber a individualidade e a subjetividade, nem incluir o observador na sua observação, não tem forças para pensar todos os problemas, sobretudo os problemas Éticos. Pode ser eficaz para a dominação dos objetos materiais, o controle das energias e a manipulação dos seres vivos. Mas se tornou míope para captar as realidades humanas, convertendo-se numa ameaça para o futuro humano.” P.62

Sob este pano de fundo, podemos perceber que Morin e Michel Serres já nos apontam à necessidade do homem se religar, reconectar com a sociedade, meio natural e com nós mesmos para compreendermos que essas atitudes individualistas não nos levarão as atitudes Éticas capazes de pensar sistemicamente o quanto tais atitudes poderão impactar na solidariedade de uma sociedade.

Podemos começar por exemplo reconectando indivíduo, espécie e sociedade sendo adeptos a campanha proposta pelo governo federal “SACO É UM SACO” onde cada um de nós podemos através de uma postura Ética optar pelo uso de sacolas retornáveis ao invés das sacolas plásticas.

Os sacos e sacolas plásticas são produzidos a partir do petróleo ou gás natural, que são extraídos de fontes não renováveis que no seu processo de extração emitem gases causadores do efeito estufa, além disso, o tempo médio de decomposição dos sacos plásticos é de 100 anos. È muito comum também encontrarmos peixes, e tartarugas marinhas se alimentando de plásticos ao confundi-los com alimentos. Outro problema é quanto ao seu uso, muitas pessoas usam os sacos para descartar o lixo o que muitas vezes é desnecessário em função de alguns destes lixos serem recicláveis aumentando o seu tempo de vida útil e evitando que se retire da natureza recursos que não são renováveis.

O difícil não é pensar individuo espécie e sociedade, mas sim as atitudes éticas que este pensamento de Morin e de Serres nos propõe: pensar o passado vivendo o presente e olhando o futuro onde nossas ações impactam sobre a vida do outro e logo na sociedade.

Portanto, não podemos deixar que a banalização do tema sustentabilidade seja um desvio na rota do caminho para a inovação nas empresas, mas como profissionais de comunicação devemos sugerir o diálogo e o incentivo a reflexão e auto conhecimento como modo futuro de sobrevivência e posterior evolução da nossa espécie na terra.

Não temos aqui a pretensão de achar que somos exclusivamente o reflexo da construção social da história dos indivíduos que formam este emaranhado cultural global ao qual pertencemos, mas, sobretudo, que somos atores sociais e desempenhamos multi papéis com o poder de multi influências na construção desse novo pensamento e, portanto na construção dessa nova sociedade.

Contudo, o que falta é uma revolução cultural no sentido da percepção da vida para uma verdadeira transformação da realidade atual, seja na vida, seja na sociedade ou nas organizações. Se existe este vazio entre discurso, ou seja, na comunicação e a prática das organizações é porque nós legitimamos o comportamento blasé em conformidade com as situações conseqüentes das relações entre capital e trabalho.
O poder econômico sobrepõe às outras dimensões propostas pela sustentabilidade: dimensão social e dimensão ambiental. Pensar sob a ótica sistêmica é deixar antigos comportamentos e práticas para desvendar o novo que essa reflexão nos sugere. A questão inicial que motivou a escrever este texto só poderá ser respondida se de fato nós estivermos preparados para desvendar o novo.

Autora: Vivian Aparecida Blaso Souza Soares César, Relações Públicas, especialista em Sustentabilidade